Uma relactação? O que é isso? Por onde começar?

Algumas vezes, somos contactadas por mães que já não amamentam há algumas semanas (às vezes meses) e que ouviram dizer que podiam voltar a amamentar e querem saber o que têm de fazer para que voltem a produzir leite. Se, por um lado, ficamos felizes por saber que cada vez mais mães têm informação de que amamentar é possível, mesmo depois de ter parado algum tempo, por outro, preocupa-nos a forma como esta informação está a ser transmitida, dando a falsa ilusão de que é sempre possível – basta querer.

Este artigo serve para esclarecer que, às vezes, o querer não chega; é preciso haver condições para. E a primeira condição fundamental é Consciência – informação e esclarecimento plenos sobre aquilo que é uma relactação; o que envolve; o que significa na prática. A segunda condição fundamental é Especificidade – entender que este é um processo único, individual, que depende daquela mãe e daquele bebé em particular, da história de amamentação, do que levou ao desmame precoce, do apoio que têm, ou não, de quem os rodeia e está com eles diariamente, da disponibilidade da mãe para estar com o bebé, etc.

Aconcanstockphoto7427596selhamos sempre a procurar apoio presencial de uma conselheira de aleitamento materno (CAM)/consultora de lactação antes de começar – para que o esclarecimento seja adequado às especificidades da mãe e do bebé e para que a mãe possa obter uma plena consciência do processo e, assim, poder decidir se uma relactação é aquilo de que ela e o seu bebé precisam.

Neste artigo, procuraremos esclarecer o que envolve uma relactação, na generalidade dos casos.

Uma relactação é um processo, que pode durar semanas ou meses. Pode aplicar-se a bebés que mamam e tomam suplemento ou a bebés que já não mamam, de todo, há algum tempo.

No primeiro caso costuma ser mais simples, pois o bebé ainda continua a mamar e o processo passa por:
1) Perceber o que originou a introdução de suplemento e eliminar/minimizar essa dificuldade, se ainda existir;
2) Aumentar a produção de leite da mãe, se esta estiver comprometida (ou seja, não adequada às necessidades atuais do bebé);
3) Reduzir a quantidade de suplemento gradualmente até o conseguir retirar totalmente ou estabilizar numa quantidade mínima.

No segundo caso, é preciso fazer tudo o que descrevemos anteriormente com um bebé que pode já não estar nada familiarizado com a mama – e que, por isso, recusa ou não sabe o que fazer com ela. A amamentação é uma relação, e o bebé pode já não saber como relacionar-se dessa forma. Por isso é preciso tempo. Disponibilidade. Para que mãe e bebé se redescubram dessa forma. E muito, muito apoio e compreensão de quem rodeia a mãe e o bebé.

Voltar a amamentar depois de ter parado ou deixar grandes quantidades de suplemento significa, normalmente, muito mais do que pôr a mãe a produzir novamente leite ou mais leite. Numa relactação pode ser útil tomar medicação (que deve ser prescrita por um médico) ou galactogogos naturais (chás, ervas…) para estimular a produção de leite, mas esse não é o ponto fundamental e não é por aí que se começa, e pode nem ser preciso passar por lá!

7 Questões para fazer a si mesma se está a pensar numa relactação:

1) Quanto tempo passou desde que o meu bebé mamou a última vez e que idade tem atualmente?
2) O que aconteceu para que ele deixasse de mamar?
3) O que me motiva a querer amamentar novamente?
4) Tenho disponibilidade emocional suficiente para iniciar este processo sem saber qual pode ser o seu desfecho?
5) Compreendo que o meu bebé também faz parte desta relação e pode não estar imediatamente disponível para ela?
6) Tenho tempo e disponibilidade para investir no processo e no que ele implica?
7) O pai do bebé/meu companheiro apoia-me incondicionalmente? Outros familiares/amigos significativos apoiam e compreendem? E o médico que acompanha o bebé, o que pensa sobre isso?

Vamos ver cada uma destas questões individualmente e o que implicam.

1) Quanto tempo passou desde que o meu bebé mamou a última vez e que idade tem atualmente?

À partida, quanto mais tempo tiver passado desde que o bebé pegou na mama pela última vez – mesmo que tenham sido só umas sugadelas – e quanto mais velho for o bebé, maior o desafio que têm pela frente. Bebés com poucas semanas, mesmo que nunca tenham mamado, têm os instintos para a amamentação ainda muito despertos e, em princípio, com maior facilidade voltam a pegar na mama se o ambiente certo e as condições necessárias estiverem presentes. Além de que aumentar a produção de leite após as primeiras semanas pós-parto também é, geralmente, mais difícil.1d13fc_a0fd798d529b48b0b676d3483d59ad57

Se o seu bebé ainda mama e toma suplemento, as questões importantes são: Quando é que foi introduzido suplemento (do meu leite ou outro leite)? Quanto tempo passou desde então? Quantas vezes mama atualmente e que quantidade de suplemento ingere e em que alturas do dia? As respostas a estas perguntas irão ajudar a compreender se o bebé se alimenta maioritariamente à mama ou não.

2) O que aconteceu para que ele deixasse de mamar?

É muito importante perceber o que levou a que o bebé deixasse de mamar e/ou o que levou à introdução de um suplemento. Uma CAM poderá ajudar a perceber isso. Ultrapassar essa dificuldade é essencial para que, desta vez, tudo corra melhor.

3) O que me motiva a querer amamentar novamente?

Para além de identificar qual é o motivo para retomar a amamentação, quantifique a sua motivação numa escala de 0 a 10. A motivação para voltar a amamentar ou para suprimir o suplemento e tornar a amamentação a fonte exclusiva ou maioritária de alimento do bebé tem de ser 10. Só com um “estou totalmente motivada”, “é mesmo isto que eu quero”, “tenho a certeza que é este o caminho a seguir” deverá iniciar este processo. Não é, sequer, possível de outra forma.

4) Tenho disponibilidade emocional suficiente para iniciar este processo sem saber qual pode ser o seu desfecho?

A verdade é que ninguém poderá garantir que, no fim, o bebé terá voltado a mamar exclusivamente, e muito menos quantificar a duração desse processo em semanas ou meses. Em alguns casos pode, mesmo, já não ser possível ter como objetivo a amamentação exclusiva. Esteja preparada para avanços e recuos e para um caminho que pode ser mais ou menos longo.

5) Compreendo que o meu bebé também faz parte desta relação e pode não estar imediatamente disponível para ela?

1d13fc_98f95aa4583c4442814a17a0cd3a439cAlguns bebés poderão surpreender todos mostrando rapidamente interesse em (re)descobrir a mama da mãe, outros irão mostrar-se frustrados por não saber o que fazer com ela. O comportamento do bebé perante a mama dependerá muito da idade dele no momento, de quanto tempo tiver passado desde que mamou pela última vez, do quão consistente e disponível for a mãe para esta (nova) relação de amamentação.

Poderá explorar, lamber, mostrar-se curioso, tocar e tentar pegar. E poderá ficar frustrado por não conseguir e começar a chorar. Pode mostrar-se muito chateado e virar imediatamente a cabeça para o lado e/ou afastar-se da mama assim que esta surja. E pode haver um dia em que pega e começa a mamar e suga algumas vezes. Celebre cada um destes comportamentos como uma vitória, porque é mesmo! Sim, até quando ele virar a cara para o lado. O que queremos é relacionamento e reações. É assim que se constroem relações.

6) Tenho tempo e disponibilidade para investir no processo e no que ele implica?

Voltar a amamentar ou suprimir um suplemento, principalmente se este for a grande fonte de alimento do bebé, envolve tempo. Estar. Relação mãe-bebé e bebé-mãe a um nível íntimo, profundo, e implica, por isso, um grande investimento de tempo.

É preciso tempo e disponibilidade para quê? Contacto pele-a-pele muito frequente. Se o bebé tiver poucas semanas de vida, estecanstockphoto19272592 contacto pele-a-pele pode ser necessário em boa parte do dia. E que mais? Para dormir junto do bebé. Para carrega-lo ao colo.
Os bebés não mamam afastados das mães e as mães não podem amamentar se estão longe dos bebés. Para que qualquer relação de amamentação corra bem e flua, é preciso essa disponibilidade. Para reatar essa relação, provavelmente é preciso o dobro. Quanto mais colados, juntos, próximos estiverem, melhor. Use e abuse do babywearing, do co-sleeping e do contacto pele-a-pele.

Uma questão que se pode colocar neste ponto é: Quando irei regressar ao trabalho? E é possível adiar esse regresso? Infelizmente, iniciar uma relactação com o regresso ao trabalho daí a poucos dias/semanas, pode não ser compatível.

Em alguns casos, também pode ser preciso investir algum dinheiro; numa boa bomba, por exemplo. Se é preciso estimular a produção de leite, aconselho uma bomba do estilo hospitalar, dupla. Há possibilidade de alugar. Também pode precisar de investir em quem vos possa ajudar, seja uma CAM, doula pós-parto, médico e/ou um especialista que possa ser útil (dependendo das situações e necessidades).

medela-advice-expressing-breastmilkAo falarmos de estimular a produção de leite (o que será necessário na maioria dos casos), isso também envolve tempo. No início falei de galactogogos (químicos ou naturais), sobre os quais deverá aconselhar-se com o seu médico e CAM, no entanto, a forma mais eficaz de estimular e/ou aumentar a produção de leite é o estímulo mecânico sobre a mama. As tentativas do bebé à mama, o contacto pele-a-pele, tê-lo sempre muito perto, são ótimos estímulos da sua produção de leite, mas, provavelmente, não irão ser suficientes para que ela aumente ao nível das necessidades atuais do seu bebé. Portanto, poderá ser necessário usar um extrator várias vezes ao dia, principalmente se o seu bebé não mamar. E, provavelmente, das primeiras vezes não irá conseguir tirar nada ou apenas umas gotas. É normal e expectável. O que queremos é ‘estimular’. Ao fim de alguns dias (1-2 semanas) a estimular, muitas mulheres sentem uma espécie de nova ‘subida de leite’. A natureza funciona mesmo! Mas também precisa de… tempo.

54-5036-2-6Assim que o seu bebé começar a aceitar sugar na mama ou se ele ainda mama e toma suplemento depois, é possível usar um sistema de nutrição suplementar – que irá permitir que ele faça uma mamada completa à mama! A sua CAM poderá fornecer-lhe o material necessário, mostrar-lhe como usar e esclarecer quaisquer dúvidas/dificuldades que surjam ao usar este sistema. Desta forma, irá conseguir eliminar a utilização do biberão e estimular mais eficaz e rapidamente a sua produção de leite e, assim que possível, iniciar a supressão gradual do suplemento. Pode ver um vídeo de um bebé a mamar com esse sistema aqui.

7) O pai do bebé/meu companheiro apoia-me incondicionalmente? Outros familiares/amigos significativos apoiam e compreendem? E o médico que acompanha o bebé, o que pensa sobre isso?canstockphoto15686922-1

Depois de tudo isto, esperamos que a sua motivação continue em 10! 🙂 Não é fácil! Mas é possível! É preciso apoio especializado. É preciso apoio de quem a rodeia, especialmente do pai do bebé/do seu companheiro. É preciso estar muito motivada e consciente. É difícil manter-se motivada quando todos à sua volta lhe dizem que “não vale a pena”, “o leite da farmácia também é bom”, “já não tem leite, para quê tanto trabalho?” Por isso, é fácil perceber este número 7.

Para saber onde procurar apoio profissional, pode contactar-nos para rede@amamenta.net ou clicando aqui. Para ter um grupo de apoio de mães que sabem o que é uma relactação, pode pedir adesão ao grupo Apoio À Relactação no Facebook. Pode ler histórias de sucesso no nosso blog.

A consciência é o que nos leva a ter poder sobre a nossa vida, sobre o rumo dos acontecimentos, sobre aquilo que nos acontece. É a consciência que nos torna atores em vez de espetadores da vida Esperamos que este artigo a tenha ajudado a ter mais consciência sobre este assunto e a decidir aquilo que sentir ser melhor para si e o seu bebé.

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