Amamentação e Fases do Desenvolvimento 0-12 meses

Disclaimer

Cada bebé é único, por isso tem a sua própria curva de desenvolvimento psico-motor e de aquisição e aprendizagem de uma competência.

O objetivo é informar que o bebé muda a forma como mama e se relaciona com a mama à medida que cresce e atravessa períodos sensíveis no desenvolvimento.

Este artigo é sobre o comportamento normal à mama em cada fase do desenvolvimento. Estão excluídas deste artigo as dificuldades na amamentação.

Alguns comportamentos aqui descritos podem ser sinal de dificuldades na amamentação – quando ocorrem num determinado contexto. Se sente que há um problema, contacte uma conselheira em aleitamento materno / assessora de lactação. Pode procurar apoio em www.amamenta.net.

0 – 6 semanas

Nesta idade, o bebé é, sobretudo, instintivo.

A termo e saudável, e de preferência após um nascimento espontâneo e o menos medicalizado possível, espera-se que o bebé seja capaz de iniciar a amamentação pouco tempo após o nascimento – é normal que demore até cerca de 1 hora a fazê-lo. Não precisa de ajuda externa para o fazer, se for mantido em contacto pele-a-pele permanente com a mãe.

O bebé recém-nascido põe em prática o que já aprendeu sobre sucção e deglutição in-utero e conta com a preciosa ajuda de comportamentos instintivos e reflexos. Pela primeira vez, tem de aprender a coordenar a sucção e deglutição com a respiração – algo totalmente novo para ele. Mais informação aqui: A pega.

As dificuldades iniciais na amamentação costumam ser transitórias e derivadas desta adaptação. Mãe e bebé precisam, sobretudo, de TEMPO!

É também uma fase de perda de peso fisiológica – ou seja, é normal que o bebé perca até 10% do peso com que nasceu até aos 3 dias pós-parto. É esperado que, estando tudo a correr bem e a adaptação à amamentação a fazer-se normalmente e sem interferências, que o bebé recupere o peso com que nasceu até às 2 semanas completas. Alguns bebés perdem mais de 10% e/ou demoram mais tempo a recuperar e isso pode ser indicador de que precisam de uma ajuda extra para mamar o suficiente. Mais informação aqui: O recém-nascido e a perde de peso.

Os bebés aprendem muito, muito rápido, e os progressos na amamentação são notórios de mamada para mamada e do início para o fim de uma mamada. A cada mamada estabelecem-se milhões de conexões neurológicas e há outras que se desfazem – à medida que se afina esta competência – tornando o bebé num MESTRE na arte de mamar! Mais informação aqui: Amamentação instintiva e natural.

É usual que um bebé desta idade mame 8 a 12 vezes por dia e por períodos de 30 a 60 minutos (em média).

É normal que mame (alimentando-se) e depois permaneça na mama ou junto desta para dormir – não é apenas normal, é saudável que assim seja e essencial para a maturação neurológica do bebé e funcionamento normal do seu organismo. O habitat do bebé é o corpo da mãe e a mama funciona como uma placenta externa, que alimenta física e emocionalmente o bebé. Mais informação aqui: A importância do contacto pele-a-pele para o bebé. E aqui: Mamíferos Cache, Nest, Follow, Carry.

6 – 12 semanas

Nas primeiras semanas pós-parto, as hormonas (nomeadamente prolactina e ocitocina) estão muito elevadas – por isso há uma tendência natural de sobreprodução na maioria das mulheres. Por volta das 6 a 12 semanas, o corpo da mãe já ‘aprendeu’ como mama o seu bebé em termos de frequência, duração, a forma como o faz, etc. e começa a adaptar a produção de leite a essas necessidades.

À medida que o corpo da mãe volta a um equilíbrio e se ajusta à forma do seu bebé mamar, entra em homeoestase a nível da produção de leite. É a fase de “sinto a mama mole”, “a mama já não pinga” – o que leva a insegurança em muitas mulheres que não sabem desta autoregulação natural e desejável do seu corpo. Alguns organismos alcançam este estado mais cedo e outros mais tardiamente.

Para o bebé, esta fase é de crescimento muito acelerado. Tem sido amplamente divulgado que existem muitos ‘picos de desenvolvimento’ nesta fase, que explicariam a voracidade com que alguns bebés querem mamar em alguns dias, a irritabilidade, o choro mais frequente, a dificuldade com o sono. No entanto, os ‘picos de crescimento’ descritos desta forma não têm qualquer fundamento científico!

O bebé desta idade é muito imaturo neurologicamente e tem dificuldade de processar certos estímulos, revelando irritabilidade quando stressado/cansado – isso influencia a forma como ele mama porque um bebé cansado pode não conseguir mamar. Algumas mães e pais pensam que se tratam de cólicas ou de ‘picos de crescimento’. Mais informação aqui: O stress do recém-nascido.

A verdade é que não existe evidência de que os bebés mamem mais, durmam menos e fiquem mais irritados em ‘picos de crescimento’, pelo contrário, há evidência de que os bebés em pico de crescimento dormem mais. É a dormir que se cresce porque é durante o sono que são segregadas as hormonas de crescimento. (1) (2)

Também se presumiu que um ‘pico de crescimento’ seria um período em que o bebé mama mais vezes para aumentar a produção de leite e obter maior quantidade de leite… Pois a evidência não demonstra isso. Os bebés amamentados mantêm a quantidade de leite ingerida entre 1 e 6 meses de idade. (3) (4)

O conceito de ‘crise do desenvolvimento’ (o bebé está a aprender e desenvolver novas habilidades e isso provoca alterações no seu comportamento) foi introduzido, entretanto, para explicar esta irritabilidade, sono e alimentação alterados e, atualmente, parece ser o que faz mais sentido para explicar estas variações tão frequentes em bebés desta idade. Para ler mais sobre ‘crises do desenvolvimento’, clica aqui. (5)

Então e os ‘picos de crescimento’ – existem mesmo? Sim! Mas não como julgámos durante anos. Os ‘picos de crescimento’ ocorrem quando os bebés dormem mais do que habitual e isso deve-se ao ciclo da hormona de crescimento. (1)

Por volta dos 2 a 3 meses, é comum que os bebés chorem ou mostrem irritação em algum momento da mamada. Provavelmente, nunca iremos construir uma lista completa dos motivos que pode levar a este comportamento nem nunca seremos capazes de lhe dar um ‘nome’ que encaixe todas as possibilidades. Os bebés são todos diferentes – as explicações nunca podem ser generalistas!

Vamos ver alguns motivos possíveis e habituais:

  • Após a vacina dos 2 meses (também pode acontecer com outras vacinas), muitos bebés ficam mais sonolentos, com pouco apetite e choram quando colocados à mama. É uma reação possível à vacina e que pode durar alguns dias
  • Os bebés desta idade tornam-se muito eficientes a mamar e conseguem fazê-lo sem necessidade de pausas para dormitar. Podem passar a mamar em 5-10 minutos ou menos. Se a mãe insistir com a mamada, podem chorar e manifestar grande irritação.
  • Alguns bebés também demonstram irritação quando colocados à mama numa fase em que estão sobre-estimulados e com dificuldade em adormecer. Muitas mães interpretam esse comportamento como “tenho pouco leite”, “o meu leite não é bom”, “comi algo de que o meu bebé não gosta”, etc. Muitas descobrem, instintivamente, que se acalmarem o seu bebé e o ajudarem a relaxar, ele adormece e acorda mais tranquilo, pronto para uma mamada.
  • Alguns bebés também choram quando querem fazer sucção não-nutritiva porque já estão satisfeitos, mas a mãe continua com uma produção de leite intensa e têm dificuldade em gerir a quantidade de leite que a mama lhes dá. Mais informação aqui: Mamadas agitadas.
  • Noutros, pode ser uma forma de dizer: “Ei, esta maminha já me deu tudo o que eu queria, agora quero a outra!” Ou ainda: “Mamã, preciso de arrotar ou fazer uma pequena pausa”.
  • E a lista poderia continuar… Sobretudo, ouve o teu instinto e olha para o teu bebé. Não há ninguém que conheça melhor o seu bebé do que a mãe. Se algo não resulta, experimenta outra coisa. Se oferecer a mama não resulta para acalmar o bebé, é hora de experimentar outra forma.

4 – 6 meses

Chegados aos 4 meses, um bebé desta idade já tem cerca de 280 horas ou mais de amamentação acumuladas! (Cálculo segundo a recomendação mínima de 140 minutos de amamentação em 24 horas em Smith’s ABC Protocol, Supporting Sucking Skills in Breastfeeding Infants, Catherine W. Genna).

Se tudo tem corrido bem até este ponto, podes ter a certeza de que vai continuar a correr – ninguém é mais expert do que o teu bebé na arte de mamar e do que o teu corpo na arte de produzir leite.

Por falar em produzir leite, por volta dos 4 meses do teu bebé o teu corpo já produziu cerca de 120 litros de leite! O que é que pode correr mal daqui para a frente? O teu corpo é 100% funcional e aperfeiçoou o mecanismo de produção de leite.

Por tudo isto, os bebés nesta fase mamam bem rápido e dominam perfeitamente a técnica de sucção não-nutritiva, por isso é mais comum que relaxem na mama quando estão irritados e cansados.

Os bebés bolsadores costumam melhorar nesta altura, por isso é provável que tenhas menos roupa para lavar.

Há bebés que mamam de um lado, outros dos dois, outros variam e isso é perfeitamente normal. Alguns, podem começar a pedir as duas maminhas em cada mamada nesta fase – e está tudo bem.

É muito comum que as mamadas, além de demorarem pouco tempo, passem também a ser menos frequentes. Alguns bebés mamam 6 a 8 vezes em 24h, sem que isso represente um problema. Outros podem continuar a fazer mamadas frequentes, mas normalmente mais curtas. Se o teu bebé ainda faz mamadas muito prolongadas nesta idade, pode ser indicador de alguma dificuldade – é muito comum em bebés que usam mamilos de silicone. Mais informação sobre mamilos de silicone aqui: Sente que precisa de mamilos de silicone? E aqui: Tudo sobre mamilos de silicone – Vídeo.

Nesta fase dos 4 aos 6 meses, é habitual ver um bebé a largar a mama de repente, a puxá-la, a distrair-se facilmente durante as mamadas – olhando em volta quando ouve algum som e parando para brincar com o mamilo e rir-se para a mãe. Algumas mães percebem que é difícil amamentar os seus bebés perto de outras pessoas.

A preocupação mais frequente desta fase: a evolução ponderal – ou seja, o aumento de peso do bebé. Acontece uma desaceleração normal e fisiológica do crescimento. O bebé amamentado dobra, em média, o peso de nascimento pelos 4 meses, e chegado aos 12 meses só irá ter mais 2,5x a 3x o seu peso de nascimento. A desaceleração é enorme! Não significa que o leite materno já não é suficiente e que o bebé precisa de outro alimento, significa apenas que aquele bebé é saudável.

É costume um bebé nesta idade pedir para mamar virando-se para a mama e levando a mão à mama da mãe.

6 – 12 meses

Aos 6 meses recomenda-se a introdução da alimentação complementar. Esta introdução deverá ser muito gradual e sem substituição de mamadas para não comprometer a amamentação. O leite materno é o principal alimento até cerca de 1 ano. Mais informação aqui: A amamentação e a introdução da alimentação complementar.

Coincide com o regresso ao trabalho da mãe e ausência de várias horas por dia – o que para o bebé não é algo natural – e, por isso, deve-se procurar compensar tanto quanto possível a falta de mamadas. Como? Extraindo leite materno durante as horas de afastamento, oferecendo mais a mama quando estão juntos, minimizando o uso de tetinas, em especial na presença da mãe. Muitos bebés irão compensar a falta da mãe com mais despertares noturnos e mamadas durante a noite. 

Dos 6 aos 12 meses, o teu bebé está muito interessado em explorar tudo o que o rodeia. Irá começar a sentar-se, gatinhar, começar a colocar-se de pé e, talvez, dar os primeiros passos. É uma fase para afinar a motricidade fina, a mastigação com os novos alimentos e o início da fala.

Alguns bebés pedem para mamar menos vezes – especialmente se passam muitas horas afastados das mães – por isso é importante oferecer frequentemente quando estão juntos para evitar um desmame precoce. Mais informação aqui: Prevenir o desmame precoce.

Quando ocorrem grandes alterações na rotina, doença, vacinas ou outras situações que alterem o bem-estar emocional e físico do bebé, isso pode refletir-se na amamentação com períodos de horas ou dias em que o bebé recusa mamar. Costuma-se chamar a isto ‘greve de mama’. Alguns bebés aceitam mamar quando estão mais sonolentos e podem apresentar um comportamento diferente na amamentação durante o dia (como morder, puxar a mama com força). Mais informação aqui: Como sobreviver a uma greve de mama?

É usual que as mães se queixem com dor e fissuras nesta fase, que não têm, naturalmente, a mesma origem das fissuras dos primeiros dias de amamentação. O aparecimento dos dentes leva a alterações na forma como o bebé mama. O morder pode surgir como forma de dizer “não quero mamar” ou até para chamar a atenção da mãe.

É importante não deixar que o bebé morda, retirando rapidamente a mama. A forma mais rápida de retirar a mama do bebé que morde, sem se magoar, é tapando-lhe o nariz. O bebé larga imediatamente a mama. Também é importante não permitir que o bebé morda outras tetinas. Tenta perceber o que leva o bebé a morder e antecipa esses momentos. Se o bebé morde para ‘coçar’ a gengiva, troca a mama por um mordedor. Se morde por ter terminado a mamada, não insistas e aproveita para brincar com ele. A fase de morder costuma ser mais comum e intensa pelos 8 a 10 meses.

Em breve: A Amamentação Após os 12 meses.

Referências:

1) Infant Growth in Length Follows Prolonged Sleep and Increased Naps. 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3079944/

2) Infant Growth Spurts Tied to More Sleep. 2011. http://www.webmd.com/parenting/baby/news/20110502/infant-growth-spurts-tied-to-more-sleep

3) Longitudinal changes in breastfeeding patterns from 1 to 6 months of lactation. 2013. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23560450

4) Volume and frequency of breastfeedings and fat content of breast milk throughout the day. 2006. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16510619

5) Fussy periods and wonder weeks. 2015. https://www.breastfeeding.asn.au/bfinfo/fussy-periods-and-wonder-weeks

Autora:

Filipa dos Santos – Assessora de Lactação, Conselheira em Aleitamento Materno OMS/UNICEF, Doula, Consultora de Babywearing

Última edição deste artigo: 27 agosto de 2017 – editado para corrigir o cálculo no número de horas de amamentação acumuladas aos 4 meses de idade do bebé e acrescentar duas referências.

 

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