Picos de crescimento?! Outra vez?

Há uma expressão que todas as mães que amamentam já ouviram e ouvem constantemente: PICOS DE CRESCIMENTO.

O bebé pede para mamar de hora a hora? É um pico de crescimento.

O bebé não dorme? É um pico de crescimento.

O bebé chora e não quer mamar? É um pico de crescimento.

O bebé pega e larga a mama e mostra-se irritado na mamada? É um pico de crescimento.

O bebé tem 6 semanas, ou 2, ou 3, ou 5, ou 2 meses, ou 3 meses, ou 4 meses, ou…? É um pico de crescimento.

Basicamente, qualquer comportamento do bebé é definido como “pico de crescimento” nos fóruns de mães – e não só… Às tantas, o bebé, todo ele, é um pico de crescimento em continuum.

Os picos de crescimento, como têm sido definidos, são um mito urbano. 

O “problema” é que estamos sempre à procura de padrões e de nomes para esses padrões. Tem de haver uma explicação, com nome, para todos os comportamentos dos bebés de que não gostamos ou que nos afligem de alguma forma. Quando não é um pico de crescimento, são cólicas… Ou dentes… Ou os ‘terrible two’ e por aí fora.

Um pico de crescimento, definido como mamadas frequentes, irritabilidade ao fim do dia, episódios de choro, dificuldade em adormecer ou manter o sono, etc., não é um pico de crescimento… É um bebé! É simplesmente um bebé. Os bebés são assim. Muito voláteis de dia para dia, e ao longo do crescimento, e constantemente a pedir ajuda ao principal cuidador, normalmente a Mãe, para tudo o que precisam – especialmente quanto mais novos são. É imaturidade neurológica. É normal!

A verdade é que não existe evidência de que os bebés mamem mais, durmam menos e fiquem mais irritados em ‘picos de crescimento’! Pelo contrário, há evidência científica de que os bebés, em pico de crescimento, dormem MAIS. E só faria sentido ser assim: é durante o sono que são segregadas as hormonas de crescimento; não quando estamos acordados e irritados!

O conceito de ‘crise do desenvolvimento’ (o bebé está a aprender e desenvolver novas habilidades e isso provoca alterações no seu comportamento) foi introduzido, entretanto, para explicar esta irritabilidade, sono e alimentação alterados e, atualmente, parece ser o que faz mais sentido para explicar estas ‘variações de humor’ – se é que lhes podemos chamar assim – tão frequentes, em bebés menores de 4/5 meses.

Mamar é muito mais do que alimentar-se. Mamar tem uma importante função reguladora e re-organizadora a nível neurológico. Quando estamos ansiosos, preocupados, irritados, etc., procuramos conforto em coisas que sabemos que nos ajudam a acalmar – para nos re-organizarmos e regularmos. Os bebés amamentados, habitualmente, procuram a mama – porque sabem que funciona muito bem. E os bebés que não são amamentados, às vezes, também procuram a mama nessas alturas! É instintivo. O instinto é muito forte.

A frequência da amamentação é variável de dia para dia e ao longo do tempo, e isso é absolutamente saudável, e está longe de se relacionar apenas com necessidades nutricionais e calóricas. Tentar explicar o aumento da demanda de um bebé com necessidades calóricas, apenas, é reduzir a amamentação a leite. A amamentação é muito mais do que leite.

Filipa dos Santos – AL, CAM OMS UNICEF, Doula de parto e pós-parto

Referência:

Infant Growth in Length Follows Prolonged Sleep and Increased Naps. 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3079944

Mais informação aqui: http://porto.amamenta.net/amamentacao-e-fases-do-desenvolvimento-0-12-meses

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *