Mamã, vou-te contar um segredo: O teu leite não acaba!

Artigo da Filipa dos Santos, originalmente publicado no Blog a 8.

A par das dúvidas sobre a qualidade do leite materno, subsistem as dúvidas sobre a quantidade.
“Tenho leite suficiente?”
“Estou a ficar sem leite?”
“Não consigo extrair leite, estará a secar?”
“O que posso comer para produzir mais leite?”
“O bebé está sempre na mama e tenho a mama mole. Acho que estou a ficar sem leite.”
“Fiquei doente ou vivi uma situação stressante e… fiquei sem leite.”
“Nunca tive leite.”

São algumas das frases ou questões mais comuns sobre este assunto. Se há coisa que nenhuma mãe aguenta é a ideia de que o seu bebé pode ter FOME!

Alguns dos sinais que as mães (e pessoas que as rodeiam) interpretam, erradamente, como sintoma de “pouco leite” ou ausência dele:

  • Vamos começar pelo início: na Maternidade.

O bebé nasceu e, agora, algum profissional de saúde vai “avaliar” se a mãe tem leite, apalpando as mamas ou tentando extrair manualmente… Para além do absurdo de se fazer isso – pois é claro que a mãe ainda não tem leite maduro – ter um desconhecido a mexer-lhe na mama logo após o parto, sem ter sido solicitado, é algo que mulher alguma precisa.

NENHUMA mãe tem leite maduro – de aspeto esbranquiçado e em grande quantidade – nesta altura. Não é suposto ter. Tem colostro, que já começou a ser produzido durante a gravidez, e que é totalmente suficiente para as necessidades do bebé nos primeiros dias – e não só é suficiente, como é ESSENCIAL que o bebé tenha PLENO ACESSO a ele.

Encher o estômago de um bebé recém-nascido com 20/30ml de leite artificial (mesmo que seja a copo; pior ainda se for a biberão) só porque “a mãe não tem leite” (ou a variante “tem pouco colostro”) é privar o recém-nascido do precioso colostro, que vale mais do que qualquer vacina que já se tenha inventado.

É um assalto ao bebé e à mãe. É pôr em causa a confiança da mãe na sua capacidade de nutrir o bebé que acabou de nascer – agora e no futuro.  É pôr a amamentação na forca!

Este é um exemplo de péssimas práticas. Infelizmente, esta forma de boicotar a amamentação desde o início – quando ainda nem começou – tem sido bastante frequente e a realidade de muitas mães que me contactam. Geralmente, é sintoma de que o bebé nasceu num hospital privado qualquer…

  • O choro do bebé.

Durante a mamada, depois da mamada ou entre mamadas. Basicamente, em qualquer momento que o bebé chore e não tenha passado um intervalo de tempo que seja considerado “razoável” (normalmente, 3 horas).

Se o bebé, sistematicamente, chora durante ou depois das mamadas, convém perceber o que se passa junto de uma conselheira de aleitamento materno – ANTES de oferecer qualquer suplemento ou biberão com leite materno extraído.

Às vezes, as mães pedem ajuda depois dos problemas estarem muito instalados e já se terem encontrado soluções para eles que afastam a amamentação cada vez mais. Reverter dificuldades desde o momento em que elas surgem é muito mais fácil do que passados alguns dias ou semanas.

  • Mamadas frequentes.

Esta questão apenas se torna num problema porque a nossa sociedade “comprou” a ideia de que os bebés se alimentam a cada 3 horas e que durante a noite podem passar sem mamar a partir de certa idade.

Tendo em conta o tamanho do estômago do bebé e o tempo que este demora a digerir o leite materno, em conjugação com a duração dos ciclos de sono, é expectável que os nossos bebés queiram mamar a cada hora! (Ver mais sobre este estudo do Dr Nils Bergman).

É esperado que os bebés tenham intervalos IRREGULARES entre mamadas. Normalmente, os bebés entre as 3 e as 10/12 semanas, apresentam este padrão: de manhã fazem intervalos maiores e estão mais sonolentos e à medida que o dia avança vão pedindo para mamar com mais frequência. Ao fim do dia ficam agitados, podem chorar mais – costuma-se dizer que têm cólicas ou stress do fim do dia – e pode parecer que não fazem mais nada a não ser pedir mama.  A mãe sentirá, certamente, a mama mole, pois o bebé está a mamar com tanta frequência que todo o leite produzido é imediatamente retirado pelo bebé. Continuamente… O bebé mama e continua a ser produzido. O bebé mama de novo e mais leite está a ser produzido.

Se tentar tirar leite nesta altura é altamente provável que não consiga. Se oferecer um biberão de leite materno extraído ou fórmula ao bebé, num destes episódios, é bem possível que ele o aceite mesmo não precisando dele. O melhor é respirar fundo, tranquilizar-se, deitar-se com o bebé, pedir a alguém que trate de tudo o resto e lhe traga comida, e relaxar enquanto o seu bebé for mamando.

  • Extração de leite pouco proveitosa.

Há tantos fatores a influenciar a quantidade de leite que uma mulher consegue tirar num dado momento… Desde a qualidade da bomba às características específicas da mama daquela mulher, passando por fatores relacionados com o estado emocional em que a mãe se encontra. O stress é inimigo da hormona que ajuda o leite a sair da mama, a ocitocina, por exemplo. (Já falei sobre este assunto, aqui).

  • O bebé tomou um biberão depois da mama – e calou-se, ainda por cima.

Se tem um bebé com boa progressão do peso, saudável, a amamentação tem corrido bem… e que num momento de agitação aceita um biberão com o seu leite ou leite artificial – e não só o toma todo como até cai para o lado a dormir – posso assegurar-lhe, COM TODA A CERTEZA, que o problema não é falta de leite e que ele não o tomou por fome.

Há bebés (e especialmente bebés de poucas semanas) que aceitam sempre um biberão por mais cheios que estejam – assim como há adultos que aceitam sempre um café ou sobremesa por muito que tenham comido ao jantar.  Estes bebés precisam MUITO DE TOQUE, contacto pele-a-pele com a mãe e/ou com o pai.

Às vezes o bebé mamou há pouco tempo, adormeceu e acorda pouco depois (normalmente quando se deita no berço), e chora. As mães ficam muito preocupadas e angustiadas porque acham que o bebé tem fome. A solução é simples: mama. Se o bebé não aceita mamar, procuram-se, então, outras estratégias para o acalmar.

Nenhum bebé saudável, que mama sem dificuldade, passa fome com uma mama sempre disponível.

  • Mama mole. Leite não pinga.

Embora possa parecer contra-intuitivo, uma mama mole porque o bebé está a mamar com frequência (por exemplo a cada hora, hora e meia) não está a produzir menos leite. Pelo contrário! Está a produzir mais leite do que a mama da mãe que fica mais horas sem amamentar e que, por isso, começa a acumular leite entre mamadas e a sentir-se mais cheia.

Quanto mais frequentemente o leite for retirado da mama, não a deixando ficar “cheia”, mais leite é produzido. Quanto menos frequentemente o leite for retirado, e por isso a mama ficar “cheia”, menos leite é produzido. Isto acontece porque existe um mecanismo de controlo da produção de leite no próprio leite materno e não apenas no sistema endócrino da mãe.

Por fim, todas as mulheres vão deixar de sentir a mama grande. Lamento ser eu a dar-vos esta notícia, mas aquela mama que ganharam na gravidez e/ou no pós-parto imediato não vai durar mais do que 2 ou 3 meses após o parto. O momento em que isto acontece varia de mulher para mulher. Pode ser logo após o parto, pode ser apenas meses depois, mas normalmente é algures pelas 6-8 semanas. A esta diminuição no volume da mama junta-se outra alteração que pode levar à quebra de confiança da mãe na sua capacidade de produzir leite e de outros que a rodeiam: a mama deixa de pingar.

Não bastava ficar mais pequena, também deixa de sair leite só porque sim! É que isto de produzir leite dá muito trabalho, esgota muita energia, leva muitos recursos ao organismo da mãe… Não se pode andar a produzir leite em excesso para o resto da vida da criança. O nosso organismo tende sempre para um equilíbrio, e a produção de leite não é exceção.

Uma coisa é certa: se até aqui a amamentação correu bem, o bebé está com um aumento de peso saudável, não tem qualquer dificuldade de sucção, não toma suplementos de leite materno ou leite artificial, etc., então o leite NÃO DESAPARECEU! Não vai ficar sem leite. Não está a secar. Não tem de começar a dar suplemento. A partir daqui é só continuar a amamentar sempre que o bebé pedir – que provavelmente até estará bem mais rápido e terminará as mamadas em pouco tempo.

  • Alterações no padrão de sono do bebé.

Quando temos um bebé amamentado que habitualmente dorme 5 ou 6 horas seguidas (por exemplo) e, de um dia para o outro – sim, é mesmo assim, de um dia para o outro – começa a dormir menos, a culpa é quase sempre da mama. A mãe está a ficar sem leite ou o leite dela já não é bom. (Sobre a qualidade do leite materno, “o leite fraco”, ler mais aqui).

Lá por muitos pseudo-especialistas andarem por aí a pregar (é quase uma religião, porque de ciência não tem nada) que os bebés devem dormir a noite toda a partir de X idade (a referência da idade varia de pseudo-especialista para pseudo-especialista), isso não o torna verdadeiro. Os padrões de sono do bebé humano são muito variáveis ao longo do primeiro ano de vida. É mesmo normal que de um dia para o outro o bebé mude de padrão e que dali a umas semanas volte a mudar. E isso não tem nada a ver com o leite materno, até porque depois de introduzidos outros alimentos – infelizmente, com frequência introduzem-se outros alimentos por este motivo em bebés menores de 6 meses – os bebés continuam a despertar.

(Para aprender mais sobre este assunto, duas referências muito boas: uma espanhola e uma portuguesa. Rosa Jové, Dormir sin lagrimas e Constança Cordeiro Ferreira, Os bebés também querem dormir ).

  • Progressão ponderal. A balança.

Deixei para último de propósito. A derradeira prova dos 9 de que a mãe tem leite ou não! – É assim que muitas mães o interpretam e algumas pessoas/profissionais que as rodeiam. A balança não pesa só o bebé, também pesa a mãe, a sua confiança, a sua capacidade.

A balança não faz diagnósticos na amamentação, na saúde do bebé, na da mãe ou na sua capacidade de produzir leite. O peso é somente um INDICADOR, não é um diagnóstico. Se existe, de facto, um problema com o peso do bebé, é para investigar o que se passa. É preciso concluir rapidamente se a origem está na insuficiente ingestão de leite ou se poderá haver algum problema de saúde associado.

O outro problema com a balança: a discrepância de valores de referência. Não parece existir um consenso sobre o que é esperado; mas existe. Todos deveriam usar as referências da Organização Mundial de Saúde. A partir de 2014, em Portugal, todos os livros de saúde infantil apresentam as tabelas de percentil da OMS, mas alguns profissionais continuam a dizer que aumentos de peso de 20g diários não são suficientes, por exemplo. (Para consultar o que são aumentos médios saudáveis, aqui. Consultar as tabelas da OMS, aqui).

Quando, de facto, o peso ou outros indicadores nos mostram que o bebé não está a mamar o suficiente, é essencial procurar ajuda de alguém com formação em amamentação para entender porquê. A incapacidade de produzir leite suficiente (hipogalactia materna) não é o motivo mais frequente. O mais comum é o bebé não conseguir retirar leite suficiente por algum motivo específico – descobrir qual, é o trabalho da CAM. Intervir precocemente é importante para que a amamentação se possa manter.

(Sobre a perda de peso no recém-nascido, traduzi este artigo do Dr Bobby Ghaheri).

Na 2ª parte deste artigo vou escrever sobre alguns fatores MAIS COMUNS que podem levar a que a mãe tenha uma produção de leite insuficiente para as necessidades do bebé. Já está disponível aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *