O Sono Infantil

O artigo que se segue é da autoria de Andreia Neves, Cardiopneumologista e Investigadora no Laboratório de Medicina do Sono do Hospital de S. João, no Porto. Partilhamos com a devida autorização da autora.

De forma a que possam gerir expetativas, há duas coisas que devem ter em mente antes de ler este texto:

1. Não se ensina ninguém a dormir. O sono é um processo fisiológico dinâmico que não deve ser treinado nem ensinado.
2. Não existem fórmulas milagrosas para que os nossos filhos durmam a noite toda. Existem medidas de higiene do sono que podem facilitar e melhorar a qualidade de sono, mas não são receitas instantâneas, essas, por norma, trazem sempre prejuízo para as nossas crianças.

Posto isto, se continua com interesse no assunto, vamos lá falar um bocadinho do sono e de higiene do sono.

Há muitas coisas que ainda não sabemos sobre o sono das crianças. O sono é um processo fisiológico dinâmico e que muda ao longo da vida, particularmente nos primeiros 6 anos de vida, mantendo-se mais ou menos estável durante a idade adulta, e voltando a sofrer grandes alterações a partir dos 60/65 anos.

De uma forma bastante resumida, o sono normal é dividido em 4 fases: fase I, fase II, fase III e sono REM. A fase III corresponde ao sono profundo e, de uma forma geral, permite a recuperação física, isto é, durante esta fase do sono a frequência cardíaca e a frequência respiratória atingem os valores mínimos e o nosso metabolismo atinge a sua taxa de funcionamento mais baixa. É extremamente difícil acordarmos quando estamos em sono profundo, será necessário um estímulo externo bastante forte para nos fazer despertar.

Pelo contrário, o sono REM, apesar de a nível muscular se caracterizar por atonia dos músculos, o nosso organismo/metabolismo está em alta. O nosso cérebro exibe ondas de alta frequência e é durante o sono REM que consolidamos memórias e aprendizagens, e, no caso mais específico dos bebés, é durante o sono REM que se desenvolvem as comunicações nervosas (sinapses) do seu sistema nervoso.

Um recém-nascido não possui esta divisão em termos de fases do sono. O seu sono é dividido por sono ativo (equivalente ao sono REM) e sono tranquilo em muito menor percentagem. Só por volta dos 7 meses é que começam a surgir as fases do sono de forma mais distinta. Portanto, não podemos esperar que um bebé durma como um adulto, porque ele não é um adulto nem é desejável que assim seja. Esta evolução lenta da estrutura do sono é extremamente importante para o desenvolvimento da criança. Muitas das frustrações dos pais em relação ao sono dos bebés têm origem em falsas ideias sobre o sono dos bebés.

O núcleo supraquiasmático (localizado no cérebro) é o nosso relógio biológico intrínseco. Ele é responsável por regular as nossas funções intelectuais, metabólicas e físicas ao longo das 24 horas. Um bebé não tem o seu núcleo supraquiasmático maduro antes dos 4 meses, portanto, não é expectável que distinga o dia da noite. Mesmo após os 4 meses, a formação do ritmo circadiano não é imediata, é uma construção para a qual os indicadores ambientais, aos quais chamamos zeitgerbers, têm um papel fundamental.
Os zeitgebrs são indicadores ambientais que nos orientam no tempo e no espaço, como por exemplo a luz solar (a luz solar é o zeitgber mais importante).

Mas então, como podemos ajudar os nossos filhos com medidas básicas de higiene do sono?

Por higiene do sono entendemos um conjunto de ações que favorecem a indução e a qualidade do sono. Aplicar medidas de higiene do sono é uma das primeiras ações em doentes com patologia do sono.

Primeiro passo? Compreender as necessidades e as especificidades do sono infantil em cada etapa do desenvolvimento. Só assim poderão perceber o que acontece durante a noite com os vossos filhos.

Medidas mais básicas que vão ajudar as nossas crianças a dormir melhor:

Promover uma exposição correta à luz, preferencialmente solar. Pela manhã é importante abrir os estores de casa e maximizar ao máximo a entrada de luz natural. Esta exposição deve diminuir à medida que o dia vai progredindo. A partir das 17h, sensivelmente, devem reduzir ao máximo possível a exposição à luz. Isto vai permitir uma espécie de sincronia entre o ritmo circadiano, que está em formação, e as 24h do nosso dia.

• Outra questão extremamente importante, e relativamente pouco falada, é a sobrestimulação. É muito importante, para propiciar o sono, uma redução progressiva da estimulação das nossas crianças quando se aproxima a hora de deitar. Ou seja, além da redução da exposição à luz (incluindo luz artificial e luz proveniente dos equipamentos eletrónicos, como televisões), os brinquedos e brincadeiras demasiado estimulantes vão ativar o alerta da criança/bebé e dificultar a indução do sono. E não é verdade que criança cansada dorme melhor. Isso pode acontecer em algumas crianças, mas, na maior parte, quanto mais casadas e mais estimuladas, maior é a dificuldade para adormecer.

Criar rotinas mais ou menos estáveis perto da hora de dormir. O nosso ritmo circadiano também se rege por indicações sociais, por exemplo o horário das refeições ou mesmo a hora do banho. Então, manter alguma estabilidade nas rotinas do final do dia é útil para auxiliar a indução do sono. No entanto, não precisamos obedecer a um padrão rígido.

Não criar stress nem pressão na hora de ir dormir. É importante que a criança não faça associações entre a hora de ir dormir e experiências menos agradáveis. Traduzindo isto em exemplos práticos: se deixamos o nosso filho a chorar sempre que o colocamos na cama, vai existir uma associação entre ambas as coisas. Ele até pode adormecer, é certo, pela exaustão, mas estamos a propiciar o aparecimento de terrores noturnos e de outros problemas relacionados com o sono. No caso de crianças maiores, utilizar o “vai dormir” como castigo também terá um efeito nocivo na qualidade de sono dos nossos filhos. Dormir e comer são funções biológicas importantes, não são castigos nem prémios. As crianças precisam sentir-se seguras na hora de dormir, e cabe a cada um de nós saber como transmitir essa segurança.

Muito mais há a dizer sobre medidas de higiene do sono e sono infantil, particularmente, porque à medida que as nossas crianças vão crescendo, os desafios vão sendo maiores. Estas medidas são o que chamamos de medidas primárias, ou seja, as mais básicas e que todos deveríamos ter em conta. As necessidades de cada criança são diferentes e cabe aos pais satisfazê-las e não contrariar.

Durmam muito com os vossos filhos.

A todos os pais,
Andreia Neves (Cardiopneumologista | Medicina do Sono| Hospital de São João)

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Referências bibliográficas:
Sleep Medicine Textbook, European Sleep Research Society, 2014
Consensus Stetement of the American Academy of Sleep Medicine on the Recommended Amount of Sleep for Healty Children, Jornal of Clinical Sleep Medicine, 2016
Practice Parameters for the Clinical Evaluation and Treatment of Circadian Rhythm Sleep Disor-ders, AASM 2007,
The physiology of sleep in infants. J L Heraghty, T N Hilliard, A J Henderson, P J Fleming. 2006

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