Motivos Reais e Fictícios para Indicar Suplemento – PARTE 1

Antes de mais, vamos esclarecer o que é um SUPLEMENTO.

Segundo o Protocolo Clínico Nº 3 da ABM  (Academy of Breastfeeding Medicine), Supplementary Feedings in the Healthy Term Breastfed Neonate, 2017, SUPLEMENTO define-se como:

“Fluídos adicionais, dados a um bebé amamentado, menor de 6 meses (idade recomendada para a duração do aleitamento materno em exclusivo). Estes fluídos podem ser leite humano doado, fórmula de leite infantil ou outros substitutos do leite materno (tais como soro glicosado).”

Recentemente, saíram notícias a divulgar que nas “(….) últimas duas décadas, quase duplicou a percentagem de mulheres que amamentam em exclusivo até aos três e quatro meses de vida dos filhos, segundo um estudo preliminar feito pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e pela Escola Nacional de Saúde Pública.” (Público, 06-10-17, disponível aqui.)

Isto significa que 60% das mães portuguesas só alimentam os seus bebés com leite materno até aos 3 meses e que estes bebés não tomam qualquer suplemento – o que é uma evolução muito positiva, face a anos anteriores.

No entanto, ainda há muito para fazer na educação e formação dos profissionais de saúde – o que inclui pediatras e neonatologistas, médicos de família, ginecologistas/obstetras, enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica, enfermeiros especialistas em saúde infantil, enfermeiros generalistas, e por aí fora… Bem como na (in)formação que é facultada aos futuros pais, recém-pais e sociedade em geral.

Nós, que somos chamadas para apoiar famílias, na maioria dos casos, com alguma dificuldade na amamentação, contactamos com a realidade dos 40% de mães e bebés que não conseguem manter a amamentação em exclusivo. E são muitos! As nossas estatísticas individuais, da Rede Amamenta, dizem-nos que cerca de 60% dos bebés que acompanhamos tomam suplemento – a maioria, de leite artificial.

Muitas são as mães e pais que nos pedem ajuda para deixar os suplementos (por um processo que se chama relactação) ou para evitar a sua introdução.

Para que este artigo não se torne demasiado longo, será separado em 2 partes. Nesta 1ª parte iremos publicar os Motivos Fictícios Para Introdução de Suplemento. Na 2ª parte iremos publicar os Motivos Reais Para Introdução de Suplemento.

Todos estes motivos ou indicações para dar suplemento foram listados por mães com quem me cruzei e acompanhei como Conselheira em Aleitamento Materno ou por mães com quem me cruzei através das Redes Sociais. Todos estes motivos para introdução de suplemento foram indicados por algum profissional de saúde e, a maioria deles, em bebés recém-nascidos.

Foi indicado suplemento por um profissional de saúde, porque…

(Ou… 76 motivos estapafúrdios para indicar suplemento)

  1. Bebé chora muito de noite… ou de dia;
  2. Bebé chora depois de mamar;
  3. Bebé dorme muito;
  4. Bebé dorme pouco;
  5. Bebé acorda frequentemente de noite;
  6. Bebé adormece a mamar;
  7. Bebé leva as mãos à boca;
  8. Bebé procura novamente a mama pouco depois de mamar;
  9. Bebé é “de muito alimento” ou “de muito sustento”;
  10. Bebé amarelo, sem valores de icterícia que justificam tratamento;
  11. Bebé “preguiçoso” a mamar;
  12. Bebé prematuro (mesmo sendo capaz de mamar);
  13. Bebé recém-nascido internado em neonatologia (capaz de mamar);
  14. Bebés gémeos;
  15. Bebé não pega imediatamente na mama após nascer (sem que tenha sido dado espaço e tempo em contacto pele-a-pele, sem interferências);
  16. Bebé tem “sangue grosso”;
  17. Bebé bolsador/com refluxo;
  18. Bebé fica na mama a “fazer de chupeta” (sucção não-nutritiva);
  19. Bebé “não aguenta” 3 horas sem mamar;
  20. Bebé mama durante mais de X minutos (em X colocar qualquer número entre 5 e 20);
  21. Bebé mama durante menos de X minutos (em X colocar qualquer número entre 5 e 20);
  22. Bebé com 1 dia de vida demora mais de meia hora a mamar;
  23. Bebé perdeu menos de 8% a 10% do peso com que nasceu;
  24. Bebé recém-nascido (3 dias ou menos) perdeu 10% do peso com que nasceu (sem que se implementem medidas adequadas de suporte à amamentação);
  25. Bebé não recuperou o peso de nascimento em menos de 10 dias;
  26. Bebé aumenta pouco de peso após indicação de diminuir a duração das mamadas;
  27. Bebé aumenta o mínimo de peso (mas mantém a sua curva de percentil);
  28. Bebé com qualquer peso abaixo do percentil 50 (mesmo que a evolução seja normal);
  29. Bebé com perda de peso aparente ou ganho insuficiente de peso aparente (pesado em balanças diferentes e com indicadores de ingestão adequada de leite);
  30. Bebé aumenta menos de Xg/dia (colocar em X o nº 20, 30 ou 40);
  31. Bebé com baixo peso ao nascer (mesmo quando o bebé pesa mais de 2,5kg);
  32. Bebé com peso elevado ao nascer (mesmo quando o bebé pesa menos de 4,5kg);
  33. Bebé com 4 meses, que já duplicou o peso de nascimento, com desaceleração normal no aumento ponderal;
  34. Bebé que já come outros alimentos e que só apresenta quebra no percentil após introdução da alimentação complementar;
  35. Bebé começou a acordar de noite e o leite da mãe enfraqueceu;
  36. Bebé, maior de 1 mês, passa alguns dias sem dejeções (mesmo com aumento de peso normal);
  37. Bebé com gastroenterite;
  38. Bebé precisa de fazer o teste de audição;
  39. Bebé chucha com força na chupeta;
  40. Bebé tem de dormir a noite toda;
  41. Bebé não mamou “o suficiente” (após a 1ª mamada);
  42. Prevenir que o bebé se canse a mamar (sem que haja alteração das saturações e outros indicadores clínicos de insuficiência respiratória e/ou cardíaca);
  43. Prevenir hipoglicemia (em bebé de termo e saudável);
  44. Prevenir perda de peso fisiológica inicial… ou porque o bebé “não pode” perder o peso com que nasceu;
  45. Prevenir icterícia… ou tratar icterícia… ou para que o bebé não saia da fototerapia por X horas (colocar 3 ou 4 em X);
  46. Prevenir desidratação do bebé (em bebé saudável);
  47. Mãe possa descansar enquanto alguém cuida do bebé;
  48. Mãe não consegue extrair leite com a bomba ou extrai “pouco”;
  49. Mãe e bebé separados após o parto (normalmente em caso de cesariana);
  50. Mãe deve oferecer suplemento após mamar e, se o bebé aceitar, é sinal de que precisa;
  51. Mãe tem “maus” mamilos para amamentar;
  52. Mãe tem as mamas muito duras;
  53. Mãe não vai conseguir amamentar (geralmente, quando tem um bebé de poucas horas nos braços);
  54. Mãe não tem leite… ou ainda não tem leite… ou não vai ter leite (com um recém-nascido nos braços);
  55. Mãe não tem colostro… ou tem pouco colostro… ou o colostro não alimenta e o bebé “sofre de fome”;
  56. Mãe levou anestesia geral… ou local;
  57. Mãe fez raio X ou outro exame compatível com amamentação;
  58. Mãe tem de tomar X medicamento (colocar em X qualquer medicamento compatível com a amamentação, que pode ir desde antibióticos a antidepressivos/ansiolíticos e outros);
  59. Mãe tem mastite;
  60. Mãe tem anemia;
  61. Mãe não fez teste de HIV na gravidez;
  62. Mãe é diabética… ou teve diabetes gestacional;
  63. Mãe é magra;
  64. Mãe não tem aréola escura nem mamilo grande;
  65. Leite materno após X meses já não é bom/suficiente… ou é “só água” (em X colocar qualquer valor a partir de 6);
  66. Mama cansa mais do que o biberão;
  67. Subida do leite ainda não aconteceu (com 7 horas após o parto… ou 40 horas após o parto… ou colocar qualquer número inferior a 5 dias pós-parto);
  68. Leite da mãe “é fraco”… ou mãe de origem indiana, por isso tem leite “fraco”;
  69. Se não der suplemento não tem alta hospitalar;
  70. Suplemento tem mais ferro do que o leite materno;
  71. Só pode dar uma mama por mamada;
  72. Parto por cesariana;
  73. Dentro de 1 mês a mãe regressa ao trabalho e ficará sem leite;
  74. O suplemento pode vir a ser preciso;
  75. Pai possa participar da alimentação;
  76. Não há profissional disposto… ou com tempo… ou com formação para ajudar mãe e bebé na amamentação.

Se tiver sido indicado suplemento por algum motivo não listado, por favor deixa nos comentários. Obrigada!

A 2ª parte deste artigo sai em breve, com informação sobre “Possíveis indicações para suplementar um bebé de termo, saudável” (Protocolo Clínico Nº 3 da Academy of Breastfeeding Medicine).

Até lá, se tiveste indicação para dar suplemento, coloca estas 7 questões ao profissional de saúde que indicou.

Podes ler, também, sobre o que é uma relactação (processo para deixar suplementos) aqui.

Autora: Filipa dos Santos

13 thoughts on “Motivos Reais e Fictícios para Indicar Suplemento – PARTE 1

  1. Paula says:

    O meu 3* filho nasceu às 39semanas, com 4430g e 53cm, a pediatra que assistiu dizia que ele era um “falso tranquilo” e que a mama não era suficiente. A poucos dias de fazer 18meses, continuamos com LM em LD, graças ao excelente pediatra que o acompanha e á fantástica Filipa dos Santos que se cruzou nas nossas vidas.

  2. Ana says:

    O meu foi igualzinho ao seu com diferença apenas de mais 100gr,mesmo tempo e mesmos cm e o que me fiziam no hospital era que eles sendo muito grandes precisavam de mais alimento,o colostro não chegava.

  3. Carla Martins says:

    Falta o típico “a mãe tem as mamas moles”. Aqui vão quase 3 meses de mamas moles com muito leitinho para o meu bebé 😍

  4. Joana Malta says:

    Eu ouvi :”se está a mamar de hora a hora é porque o seu leite não chega. Está a deixa lo passar fome e a ser egoista por insistir com a amamentação.”. Só aqui e no da me maminha descobri que era um pico de crescimento (que nunca tinha ouvido). E o meu bebe não perdeu peso, não teve uma alteração significativa na curva ponderal. Nada. Só queria mamar. O que eu chorei a ouvir isto assim. Graças a amamenta e ao da me maminha vamos em 4 meses de LM em LD.

  5. Sandra says:

    Conversa fiada nao é comigo. O meu Bebe de quase 8 meses mama quando quer incluindo durante a noite. É cansativo é, mas se ele quer é porque precisa.

  6. Raquel says:

    3dias após a minha menina nascer ela ficou com dificuldade para evacuar e uma noite estava a chorar muito e eu n sabia o que ela tinha. A enfermeira veio e tentou po-la a fazer cocó, como não conseguia disse-me “mamã eu dava lhe suplemento para ver se ela fazia”. Eu como pouco percebia confiei. Maldita a hora. Hoje em dia ela tem 2meses e n amamento. Infelizmente :/

  7. Inês says:

    A minha fofinha tem refluxo e entre o 2 e 3 não engordou um grama que fosse. Custou-me imenso ter de deixar de dar de mamar. Passei a retirar leite e juntar nutriton em 15 dias engordou 1kg. Aos 4 meses fiquei sem leite. Agora bebe LA, papa, sopa e fruta. Está com 5 meses e 7kg.

  8. Inês says:

    A minha bebe tem 2 meses nasceu com 2860gr e aos 2 meses tinha 4200gr e para MF isso é muito pouco por isso já lhe quis dar suplemento por várias razões por que chora depois de mamar, porque faz suçoes não nutritivas e segundo ela é sinal que não tenho muito leite, porque bolsa muito é porque houve uma semana que só aumentou 10 gr por dia… enfim ela já tentou varios argumentos até aqui mantenho a minha bebe a LM em LD apesar de tudo isto já me ter causado muitas dúvidas em mim própria.

    • Filipa dos Santos says:

      Olá Inês, a sua bebé tem uma média de aumento de peso de quase 700g/mês, o que está muito bem 😉 Em relação às outras questões que coloca (agitação depois de mamar, bolsar muito, etc.) podemos ajudar a esclarecer e orientar no sentido de conseguir manter a amamentação como deseja. Pode agendar consulta de amamentação aqui: http://porto.amamenta.net/consultas-de-amamentacao/
      Felicidades

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