Mito #1: Leite Fraco

Artigo da Filipa dos Santos, originalmente publicado no Blog a 8.

Deve ser rara a mãe recente – ou inexistente! – que, pelo menos uma vez na vida, não oiça um comentário deste género: “será que o teu leite é fraco?” – só assim para plantar a dúvida e iniciar o rol de questionamentos e angústias que qualquer mãe sente, principalmente se é uma mãe de primeira viagem e com um bebé de dias no colo.

Ou, numa versão mais autoritária, de alguém com anos de experiência na maternidade e zero filhos amamentados para além do primeiro mês: “o teu leite não presta, vai comprar uma lata à farmácia!”

leite

Em termos nutricionais, o leite materno é totalmente adequado ao bebé, nas proporções certas para corresponder a cada etapa do desenvolvimento e garantir um crescimento equilibrado. É biologicamente compatível e microbiologicamente seguro – ou não fosse produzido pelo corpo da progenitora para alimentar a sua cria. É medicinal, pois tem fatores promotores da saúde, como os anticorpos – de que tanto se fala – os antivirais, antibacterianos, enzimas, hormonas… Células estaminais! E muitos outros.

Mas, afinal, o que se passa com a nossa sociedade? Que doença é essa, que acomete tantas mulheres, cuja mama só produz um tipo de leite: o leite fraco?

Tem-se difundido a informação de que a amamentação é o melhor para o bebé – e para a mãe! Na teoria, todos os profissionais de saúde sabem disto, as mães e pais sabem, a sociedade em geral sabe… A ciência já o comprovou centenas de vezes, por isso não há como negar. Sabemos – mas não acreditamos? Será esse o problema?

Os nossos corpos não são capazes de nutrir filhos. Não são capazes de parir. Cada vez mais são incapazes de gerar. A sociedade contemporânea não acredita no poder do corpo, na sabedoria do corpo da mulher, nem na natureza. Por isso frases como “tinha muito leite, mas era fraco”, continuam, infelizmente, a ser atuais.

De onde veio a ideia de que “o leite é fraco”?! Onde e quando começou?

As fórmulas de leite artificial (LA) são produzidas, maioritariamente, a partir de leite de vaca, manipulado para que seja tolerável e assimilável pelo organismo de um bebé humano – já que o leite de vaca é excelente também… para os bezerros.

O leite materno é alvo de estudo pela indústria das fórmulas infantis, pois serve de referência para a sua produção. No entanto, a grande maioria dos nutrientes que compõe o LA são sintetizados ou extraídos a partir de outros alimentos que, à partida, não daríamos a um bebé (como o peixe, a soja, etc. – basta ler os rótulos). Além disso, a indústria não consegue sintetizar os fatores biológicos do leite materno que fazem dele um autêntico medicamento sem efeitos secundários.

Devemos concluir, portanto, que o leite materno só é bom para fazer fórmulas de leite artificial?! Posto nestes termos, é absurdo. No entanto, acreditamos que existe uma doença sem nome que faz das mães “insuficientes”.

O bebé chora, o leite é fraco. O bebé não dorme, o leite é fraco. O bebé dorme demais, o leite é fraco. O bebé só dorme ao colo, claro que o leite só pode ser fraco. O bebé pede mama de hora a hora, o leite da mãe “não sustenta” (outra forma de dizer que é fraco…).

O bebé não aumenta de peso, o leite é fraco. O bebé aumenta imenso de peso, a mãe só pode estar a dar suplemento ou comida às escondidas! – É preciso espaçar mais as mamadas, só dar a cada 3 horas e 10 minutos em cada mama. Uma semana depois o bebé não aumentou de peso e é preciso suplementar porque…

A mãe tinha imenso leite, mas era fraco.

É um mito? É. Um mito que parece ter, no mínimo, dois séculos de existência.

Nas sociedades Antigas, as mães amamentavam os seus filhos, no mínimo, durante os primeiros meses de vida. A maioria durante os primeiros anos. Quando a mãe morria, por exemplo, outra mulher substituía-a. Em algumas culturas (egípcios, gregos, romanos, por exemplo) contratavam-se amas de leite para substituir parcial ou totalmente a mãe – principalmente entre as mulheres da alta sociedade. O leite materno era extremamente valorizado.

Foi na Idade Média que se começou a acreditar que o leite materno tinha propriedades mágicas e que as características físicas e psicológicas da mãe podiam passar através do leite para o bebé. Com o Renascimento esta ideia continuou a ganhar importância, juntando-se também a noção de que através do leite materno poderiam ser transmitidas doenças. As amas de leite começaram a perder popularidade.

Entre os séculos XVIII e XIX, a discussão em torno deste assunto começou a levar, em definitivo, à preferência pela alimentação artificial, caso a mãe não amamentasse. O biberão e o leite de vaca começaram a ganhar terreno.

A figura do “leite fraco” parece ter surgido por esta altura, como justificação para o insucesso/incapacidade na amamentação de algumas mulheres, e foi-se consolidando à medida que se acreditava que para se ser boa mãe é preciso amamentar – ter leite fraco surgia, assim, como justificação suficiente para uma mãe não o conseguir.

Final do século XIX e século XX: as fórmulas de leite para lactentes foram-se desenvolvendo e a indústria soube, sem dúvida, aproveitar-se destas crenças que já existiam na sociedade e difundi-las, expandi-las, agigantá-las, a um nível impressionante. Em meados do século passado, era muito comum acreditar-se que o leite artificial era superior ao leite materno!

A ciência da lactação humana é recente. Só há poucos anos se começou a estudar a amamentação e o leite materno e, por isso, estes mitos começaram a “cair”. Atualmente, a ideia de não produzir leite em quantidade suficiente parece ser uma das maiores preocupações das mães informadas.

P.S.: Se alguém te disser que tens leite fraco, responde-lhe que também há mentes fracas, mas, infelizmente, ainda não se fabricam encéfalos-em-pó.

Referências:

Breastfeeding in the Course of History, 2015, http://medcraveonline.com/JPNC/JPNC-02-00096.pdf

Mitos e Crenças Sobre o Aleitamento Materno, 2011, http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232011000500015&script=sci_arttext

4 thoughts on “Mito #1: Leite Fraco

  1. Carolina Ferraz says:

    Não acho que seja totalmente assim, eu tenho seis filhos tive-os todos de parto natural e em tudo cofio no meu corpo e no meu instinto. Mas a partir do terceiro filho o meu corpo deixou de produzir leite além das duas primeiras semanas. Apesar dos esforços que fiz para amamentar simplesmente não produzia e o que produzia não nutria. A minha ultima filha chegou mesmo a perder peso mais do que seria recomendável porque o meu leite não a alimentava. Sou totalmente a favor que tudo seja o mais natural possivel no que diz respeito á maternidade, foi com desgosto que tive de assumir que o meu corpo não produzia, e tinha de recorrer a lei te em pó. Mas dei graças por ele existir caso contrário não sei o que aconteceria. Quando vejo estes textos a cerca do assunto acho sempre que são muito generalistas, cada caso é um caso, e para cada caso há cada vez mais soluções, e ainda bem.
    Eu não aceitei nunca epidural por confiar no corpo, tive 6 filhos ao natural, mas não os consegui amamentar todos, não por o lei ser fraco mas porque secou, a que grupo pertenço então.
    O caminho que alie a ciência e o natural parece-me o mais harmonioso e possivel. Pro natural não é ser contra o que é também evolução, é saber escolher contemplando todas as hipóteses.

    • amamenta says:

      Olá Carolina, obrigada por partilhar connosco um pouco da sua história. Cada caso é único, cada filho é único, por isso é natural que as histórias de amamentação sejam tão diferentes de mulher para mulher e mesmo entre filhos da mesma mulher. Quando escrevemos no Blog só podemos ser generalistas. No acompanhamento individual, a cada mãe e bebé, temos sempre de individualizar e personalizar conforme as necessidades e as circunstâncias. Não conheço a sua história, por isso não posso opinar. Existem imensos motivos para um bebé mamar e não conseguir obter leite suficiente. Acredito que fez tudo o que sabia e podia na altura. Trabalhamos diariamente com situações assim e grande parte do nosso trabalho é descobrir por que não conseguem mamar o suficiente. Depois de descobrir isso, é mais fácil resolver a dificuldade.
      Felicidades!

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