A história da Ana Rocha

Recordo-me que, muito tempo antes de ser mãe, quando me imaginava nesse papel, visualizava-me sempre a amamentar! De facto, confesso que nunca concebi outra forma de alimentar e mimar os meus filhotes, pelo que encarei desde logo a amamentação como algo perfeitamente normal, saudável e instintivo. Talvez por isso mesmo, por acreditar que seria uma prática completamente natural, quando engravidei não senti necessidade de me preparar de uma forma especial para a amamentação. É certo que a seu tempo tive algumas curiosidades que fui satisfazendo em literatura da especialidade, pesquisando na Internet e em pequenas conversas com as mulheres da minha vida! E, à medida que a barriga crescia e todo o meu organismo se preparava para a aventura da maternidade, vivia com entusiasmo a expetativa de amamentar – confiante nas capacidades do meu corpo, e no poder da Mãe Natureza em ajudar-nos, também, a tornarmo-nos Mães. Pensava, eu, que bastava sintonizar-me com o meu corpo, estar atenta aos sinais e responder em conformidade! No fundo, quase remeter-me àquele ambiente primordial onde o Universo se resume ao milagre que é a Vida!

No entanto, e porque enquanto seres humanos somos bastante complexos, nem sempre é fácil este “retorno às origens”. É inegável que vivemos num mundo ocidentalizado, onde a vivência da maternidade comporta também uma intervenção artificial e instrumentalizada (e, em determinadas circunstâncias, ainda bem que assim é – são de louvar as iniciativas que diminuem as taxas de mortalidade da mãe e do bebé no parto e no período que se segue!). Nesse sentido, perante algumas dificuldades, nem sempre recebemos a ajuda que pedimos, nem a que precisamos, e, na vontade de resolver rapidamente um problema, criam-se outros e tudo acaba por ficar ainda mais complicado!

Afinal não foi tão fácil, nem fluiu com a tranquilidade que imaginei. Apercebi-me que existe algum desfasamento entre a representação social da amamentação, as expetativas que criamos, e a realidade tal como é! Ainda na Maternidade (oficialmente “Amiga dos Bebés”), o meu filhote não estava a conseguir mamar… Com o apoio das enfermeiras, era sempre colocado à mama, mas acabavam por lhe oferecer leite artificial através de um copo apropriado (para não comprometer a amamentação). Reconheço o empenho e a vontade de ajudar das enfermeiras que nos acompanharam. Algumas foram incansáveis, experimentaram de tudo para nos ajudar… À distância, com mais e melhor informação sobre o tema, estou certa de que são necessárias práticas diferentes para que o apoio seja realmente eficaz e producente.

Durante o período em que estivemos na Maternidade, e dependendo dos profissionais que me atenderam, senti-me desrespeitada, desvalorizada e ignorada na minha vontade de amamentar em exclusivo. Estava a ser difícil, doloroso e esgotante? Sim. Era tudo cronometrado, sempre em correria, senti bastante pressão e muito pouca empatia. E eu chorava… Olhava para o meu bebé e sentia-me incapaz do alimentar e aconchegar como ele merecia e como ele tinha direito! Sentia que não estava a cumprir a minha função de mãe mamífera, responsável por dar o melhor ao meu bebé! No momento da alta, ouvi da pediatra e da enfermeira: “Não se preocupe que o leite artificial é quase tão bom como o leite materno! Vá já comprar uma lata porque o seu bebé vai passar fome!”. Magoaram-me estas palavras. Nunca as esquecerei. Hoje também sei o quanto ambas estavam erradas, o quanto refletem o que se passa diariamente nas nossas Maternidades e Hospitais, o quanto ainda falta ser feito para que todos reconheçam em plenitude a importância de amamentar. Naquele momento, eu só estava ansiosa por regressar a casa! Precisava mesmo do sossego do ninho, de estar em silêncio com o meu bebé e o meu marido… Precisava mesmo dessa paz, desse aconchego, de voltarmos a ser apenas “nós”.

Sem pressas, com todo o Amor, encontramos o nosso ritmo, fomos crescendo e evoluindo enquanto pais e enquanto casal! Superámos algumas dificuldades, outras mantiveram-se, muito por falta de informação. O meu bebé estava a desenvolver otimamente, mas não estava a aumentar de peso conforme o esperado. Impuseram-me regras (as quais não cumpri!), aconselharam-me mamilos de silicone, responderam às minhas dúvidas com mitos, desinformação e não-verdades. Nunca me conformei com as respostas que ia tendo dos profissionais de saúde que nos assistiam… Pensava sempre: “não faz sentido, não pode ser assim! Se estivéssemos na selva, sem nenhum destes instrumentos e teorias descabidas, tínhamos que nos safar!”

Incansável, passava horas com o bebé na mama e a estudar na Internet! Li de tudo, vi os vídeos todos, enviei e-mails, aprendi com testemunhos de outras mães, percebi como é importante ouvir o nosso coração e o nosso instinto de mãe quando pressentimos que algo não está bem! Finalmente, um mês depois do meu filhote nascer e de estar a amamentar com bastantes dores e muitas interrogações, conheci o trabalho das Conselheiras de Aleitamento Materno e a Filipa dos Santos mudou completamente as nossas vidas! Pela primeira vez, senti que estava a ser ouvida e compreendida, e as minhas questões estavam a ser esclarecidas de modo perfeitamente lógico e em conformidade com o que é suposto ser amamentar!

Felizmente os nossos problemas de amamentação foram facilmente superáveis, e em pouco tempo estávamos com leite materno em exclusivo, que se manteve até aos 6 meses. Passados cerca de 21 meses, continuamos com a amamentação e algumas peripécias, e assim será até que o meu bebé se sinta preparado para novas etapas de desenvolvimento.

Ao longo deste nosso percurso de amamentação, aprendi que afinal estava certa desde o início… Amamentar é normal, saudável, fisiológico e um belíssimo ato de Amor! Não acarreta quaisquer consequências negativas, bem pelo contrário, são só vantagens! E, de facto, não é preciso complicar: garantindo-se uma pega que funciona para mãe e bebé, basta amamentar em livre-demanda… E ter apoio é fundamental! As mães e famílias que amamentam merecem ser acarinhadas, respeitadas, ouvidas e informadas com rigor e qualidade, para que se sintam confiantes nesta fase, que é das mais sensíveis e importantes das suas vidas!

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